O terceiro lugar e sua importância para as cidades

O autor Ray Oldenburg publicou em 1989 o livro The Great Good Place, que trouxe um olhar sobre os locais de encontro ocasionais e sua importância para as cidades

Em setembro de 2015, recebi um PDF do Robson, grande amigo e oráculo das melhores referências. Guardei esse arquivo em uma pasta pois saberia, intuitivamente, que me seria útil um dia.

Em 2020, depois de meses de distânciamento físico e já trabalhando no projeto que seria o embrião do Juicyhub, tive a "sorte" de cruzar com esse arquivo em meu HD. O PDF trazia alguns pensamentos do Bruce Mau sobre a importância das salas de espera, dos passeios de táxi e dos encontros aleatórios em cafés e bares, alimentando a tese de que o verdadeiro crescimento acontece fora de onde planejamos para que ele acontecesse.

 

"Real growth often happens outside of where we intend it to, in the interstitial spaces".Escreveu ele.

 

Esse mesmo texto referenciava a história do Hans Ulrich Obrist, curador e historiador da arte, que certa vez realizou um projeto inusitado. Abaixo, o próprio Hans explica a história do evento Mind Revolution, que aconteceu em Munich, no ano de 1995

“Não se pode arquitetar as relações humanas. Pode-se definir as condições sob as quais as coisas acontecem. Por esse motivo, decidimos, algumas horas antes da data prevista para a realização do evento, cancelar a conferência e apenas fazer uma "não conferência". Tinha todos os ingredientes de uma conferência - crachás, camisetas, sacolas com os currículos de todos os palestrantes, um hotel onde todas as pessoas ficariam, um ônibus para buscá-los pela manhã e levá-los ao centro de ciências, pessoas em o aeroporto pegando os convidados, toda a logística - mas a conferência engessada não estava mais lá.  Isso veio da observação de que obviamente em uma conferência as coisas mais importantes acontecem no intervalo para o café Por que fazer o resto? Faremos apenas as pausas para o café”.

Hans Ulrich Obrist

Fiquei curiosa com essa história e descobri o autor que talvez tenha organizado essas ideias antes do Bruce e do Hans: o Ray Oldenburg, que me inspirou com a sua teoria dos "terceiros lugares", ou dos "espaços intersticiais", escrita por ele em 1989.

Como não há muita coisa em português sobre o assunto - e a ideia é muito boa para não ser compartilhada - legendei esse vídeo, onde o próprio Ray fala sobre o assunto.

Crédito do vídeo: The University of West Florida

Se você assistiu o vídeo até o final, deve ter se impressionado como eu, ao lembrar que ele foi gravado muitos anos antes da pandemia de COVID-19, quando ainda não tínhamos vivido o impacto de termos passado semanas e semanas sem interação presencial com muitas pessoas que gostamos.

Ray chama a atenção ao tocar na profundidade da relação entre a cidade e as comunidades que são alimentadas pelos "terceiros lugares". Países como Itália e França são dois exemplos citados por ele, visto que durante o século XVII cafés floresciam Europa, enquanto se planejava a Revolução Francesa. As pessoas bebiam café e alimentavam-se de ideias, livros, poemas e debates.

Não dá para pensar nos dias atuais sem mencionar a Starbucks, uma marca que por muitos anos fez todos os esforços possíveis para se posicionar na mente do consumidor como "o terceiro espaço", onde um simples espresso libera um bom sinal de Wi-Fi e poltronas confortáveis por algumas horas.

Qual é o seu terceiro lugar?

Eu me fiz essa pergunta em 2020. Além do ambiente de trabalho, tentei descobrir qual lugar senti mais falta depois de meses experienciando o distanciamento físico. Confesso que consegui enumerar vários lugares em São Paulo e até mesmo em outros países. Em Santos, tive uma grande dificuldade em ir além da resposta óbvia: a praia.

Uma das definições que eu mais gosto do "terceiro lugar" é que ele é a sala de estar de uma comunidade. Os terceiros lugares podem ser cafés, salões de beleza, academias, livrarias, correios, ruas estilo boulevard, bares, cervejarias, parques, centros comunitários e até algumas lojas - lugares acessíveis onde as pessoas se reunem e a conversa acontece.

São espaços onde você pode fazer coisas no nosso ritmo que deseja. Onde nos sentimos muito bem-vindos, encontrando conhecidos - mas também desconhecidos, o que oferece novas possibilidades.

 

O terceiro lugar deve ter movimento, mas não ser caótico.

E principalmente, ter a frequência como elemento chave.

Em 1989, o visionário Ray escreveu em seu livro: "empreendedores de todo o país estão se inspirando no livro The Great Good Place para abrir ou repensar empresas e negócios de “terceiro lugar”".

 

E nas páginas do livro cita alguns exemplos de como esse locais estão ajudando a mudar a paisagem de cidades e as vidas de seus habitantes.

Nossa missão por aqui tem tudo a ver com isso: integrar pessoas empreendedoras e transformadoras da Baixada Santista, tormando a comunidade participante Juicyhub um vetor essencial para o desenvolvimento econômico sustentável da nossa região.